IMAGEM-CINEMA E A CIVILIZAÇÃO DE IMAGENS E SONS

 


                    IMAGEM-CINEMA E A CIVILIZAÇÃO DE IMAGENS E SONS


     A filosofia da imagem-cinema desenvolvida por Gilles Deleuze continua sendo essencial para compreender o papel do cinema na contemporaneidade, especialmente em uma era marcada pela superabundância de imagens — a chamada civilização das imagens. Deleuze não vê o cinema apenas como arte narrativa ou entretenimento, mas como um pensamento em movimento, capaz de criar novas formas de ver, sentir e pensar o mundo. Suas categorias de imagem-movimento e imagem-tempo rompem com a lógica da representação tradicional, permitindo que o cinema opere como força filosófica e sensível que afeta diretamente a percepção e o pensamento.

       Nesse sentido, ao invés de apenas reproduzir o real, o cinema se torna potência de criação de realidades, expressão de afetos, duração e multiplicidade. Em uma civilização saturada de signos visuais — das telas do cinema às redes sociais —, o pensamento de Deleuze oferece ferramentas conceituais para diferenciar imagens que apenas informam daquelas que provocam, perturbam e transformam. A imagem-tempo, especialmente, continua atual por sua capacidade de romper com narrativas lineares e revelar os fluxos descontínuos da existência, o tempo puro que atravessa os corpos e os espaços. Em meio ao ruído visual da contemporaneidade, o cinema que pensa, como o proposto por Deleuze, é mais necessário do que nunca.

      O século XXI será marcado, mais do que nunca, pelo consumo acelerado e massivo de imagens. O cinema, enquanto arte da imagem em movimento, não apenas sobrevive a esse cenário, mas se transforma radicalmente. As plataformas de streaming, os algoritmos, a inteligência artificial e a fragmentação da atenção moldam uma nova relação entre espectador e imagem. Neste contexto, a filosofia do cinema proposta por Deleuze ganha um valor profético: já não se trata apenas de contar histórias, mas de compreender como as imagens agem sobre o corpo e o pensamento, como nos afetam e nos capturam.

      Com o aumento vertiginoso da produção audiovisual, o risco é o empobrecimento do olhar — a banalização da imagem que apenas confirma o já sabido, que reforça clichês e automatismos perceptivos. Mas há também um caminho de resistência: o cinema que pensa, que afeta, que desterritorializa. As imagens que rompem a lógica da mercadoria e reabrem o tempo à duração, à experiência, à subjetividade. O futuro será visual, mas resta saber: que tipo de imagem prevalecerá? A que anestesia ou a que desperta? A que repete ou a que reinventa? O cinema, como linguagem da imagem, continuará sendo um dos campos decisivos onde essas disputas se darão.

 

 

Fonte foto: https://www.nationalgeographicbrasil.com/photography/2021/01/as-21-fotografias-mais-comoventes-do-seculo-21-da-national-geographic

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